quinta-feira, 28 de abril de 2011


Por Thiago Chicão:

O racismo no final do século XIX e começo do século XX, época do maior contingente imigratório apoiado pelas políticas e subsídios à imigração européia, apresentava um método que parecia consistir na invenção de um Brasil para inglês ver, segundo as palavras do sociólogo e doutor em geografia humana Demétrio Magnoli, ou seja, ocultava-se a verdadeira identidade dos brasileiros cujos diferentes fenótipos acusavam uma miscigenação de raças e, por conseguinte, um retrato não-branco do povo brasileiro em sua totalidade em prol de um tipo brasileiro cujos caracteres seriam europeizados.

A concepção de branqueamento embasada pelas teorias eugênicas em que havia uma grande preocupação em misturar o imigrante europeu branco com o brasileiro a fim de estabelecer uma “regeneração da raça” foi fortemente disseminada no meio político-intelectual, legitimando uma ideologia cujo propósito seria dar ao Brasil uma cor padrão, livrando-o das características “indesejáveis” das outras “raças” que eram tidas como inferiores e, por sua vez, incapazes de participarem do projeto branqueador por via da mestiçagem.

Segundo a revista "Der Spiegel" o presidente dos EUA, George W. Bush, em novembro de 2001 não sabia que havia negros no Brasil. Na ocasião, Bush teria perguntado a seu colega brasileiro, Fernando Henrique Cardoso: "Vocês também possuem negros?". Isto faz pensar na idéia em que, por este episódio, alguns brasileiros ainda continuam, certamente, vendo-se a partir dos olhos dos brancos estrangeiros: europeus e americanos. Por mais ingênua que essa pergunta pareça, ela orientou durante muitos anos (durante os primeiros setenta anos do século XX) a política e a cultura nacionais.

A crença na inferioridade genética das raças não brancas e na sua incapacidade de ascender à civilização foi contrabalançada por uma crença na seleção natural e social, que, através da mestiçagem, conduziria a um povo branco (pelo menos na aparência) nun futuro próximo. (Seyferth, 1986:54).

· Os sanitaristas:

Ainda no século XIX, segundo o sociólogo Magnoli em entrevista ao Roda viva da Tv cultura, dizia-se que o povo brasileiro ficava doente porque ele era miscigenado e a miscigenação produzia degeneração. Essa era uma idéia tipicamente do pensamento racial, idéia esta que caiu por terra quando os médicos sanitaristas em meados da década de 1910, com seus conhecimentos da saúde dos brasileiros e das condições sanitárias em grande parte do território nacional trouxeram respostas avessas àquelas com uma perspectiva racial. Os sanitaristas propunham um novo réu para a “indolência, preguiça e improdutividade” de certos brasileiros, eles diziam que o culpado era o abandono das elites políticas para com o brasileiro, o descaso e o “mosquito” causavam a doença. Isto fez com que o Monteiro Lobato, por exemplo, retificasse a afirmação na qual o “Jeca Tatu era doente”, Lobato passava a dizer agora que o “Jeca estava doente”.

· A mídia como reprodutora da ideologia racial

O racismo não é inato ao homem, aprende-se por via de um processo de aquisição ideológica e prática. Parafraseando Teun A. van Dijk em Racismo e discurso na América Latina: “as pessoas aprendem a ser racistas com seus pais, seus pares, na escola, com a comunicação de massa. Essa aprendizagem baseia-se no contar de histórias diárias, nos livros, na literatura, no cinema, nos artigos de jornais, nos programas de TV, nos estudos científicos, entre outros.”

A reprodução do status quo por intermédio da indústria cultural acaba legitimando a posição da classe dominante sobre a classe dominada, sendo esta última composta pelo contingente de afro-descendentes em sua grande maioria. Isto implica numa percepção crítica a respeito desta indústria para com os negros que consomem e são consumidos por este Leviatã reprodutor e alienador. A perspectiva ainda lança mão de refutações sobre a idéia de “democracia racial” no Brasil, na qual pode-se constatar através de dados e pesquisas e na própria mídia que neste país os negros não assumem índice percentual regular em cargos de liderança, tampouco em posições sociais de prestígio, o que configura um desequilíbrio na balança da “igualdade racial”.

Talvez um exemplo Pop do racismo obscuro, na contemporaneidade pode ser analisado através do programa Big Brother Brasil. Este Programa que lida com identidades e confina pessoas de temperamentos e classes sociais distintos em uma casa para serem observadas, trás dados que parecem dar razão à frase do sociólogo Demétrio Magnoli em que se fala em um “Brasil para inglês ver”. Nas 11 edições do programa houve 166 participantes cujo quantitativo de negros é correspondente a 12,6% deste total, o que parece, assim como nos séculos XIX e XX que ainda há uma necessidade e/ou prática de inculcação para negar o “tipo” característico brasileiro em prol de um fenótipo europeizado, cria-se um pseudo-brasileiro em sua totalidade que negue à sua cultura e fotografia oficial.

O Brasil é um País que comporta vários grupos étnicos das mais variadas cores, mas que apesar disto não contempla todas estas, e sim, uma única cor, denominada por “branca”. Há 40 anos a situação tem mudado em alguns terrenos da questão racial, mas ainda consiste uma peleja dos grupos minoritários por mais espaço nas universidades, na política, na mídia e em determinados setores da vida social, de forma menos díspares a fim de conter esse racismo disfarçado e consolidar seu lugar na sociedade.

2 comentários:

  1. Muito bom o texto. Realidade q poucos tem a sensibilidade de enxergar.

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  2. coitados dos japas, albinos, índios, etc...
    que eu me lembre nunca participaram do bbb.

    hehhhehe...brincadeira a parte;

    È fato que o racismo existe, porém vem diminuindo a cada década, cada vez mais os afros-descendentes vem oculpando seu lugar na sociedade, seja na presidência de países,seja como ânconra de tele-jornais, no esporte nem se fala. È evidente que a passos curtos eu sei, mas vem mudando.

    concluíndo, acredito ser mais saudável pra uma nação o racismo disfarçado do que o racismo imposto pelo ESTADO, através de cotas e beneficios, pois queira quer não, essa é a melhor forma de florescer o racismo numa sociedade. Vide EUA no século passado.

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