
Por Thiago Augusto
O filme, Os Deuses devem estar Loucos 2, trás com o seu tom cômico uma criticidade que se faz presente em toda a obra. Não se trata de uma produção hollywoodiana com suas mega explosões e ensaios do estilo de vida norte americano, mas do estranhamento de culturas, onde emanam etnocentrismos, aculturações e novas perspectivas diante do contato com o outro. Desta produção, podemos extrair uma reflexão sobre o contato entre duas culturas completamente diferentes: De um lado, temos um bosquímano simples, gestual e sincero, habitante de uma tribo pacata situada em Botswana, no deserto do Kalahari e, do outro lado, tem a Sociedade Ocidental repleta de suas tecnologias e vícios. O interessante que o filme passa uma sugestão crítica para nós ocidentais: Um breve olhar; uma palavra oportuna, um aceno espontâneo, um sorriso franco, são, por vezes, mais eloqüentes do que um grande discurso.
O filme curiosamente proporciona uma observação de um espaço diferente do nosso: As paisagens africanas em contraponto as nossas paisagens de “arranha-céus”. A organização comunal dos nativos em detrimento da organização ocidental extremamente conflituosa e individualista. Além disso, podemos dizer que o próprio título do filme é sugestivo: “Os Deuses Devem Estar Loucos”, pode-se dizer que tudo aquilo que foge de nossas crenças é tido como estranho, diferente e inusitado. Os Deuses representam, para o bosquímano do Kalahari, a tradição, a ordem moral, ou seja, a normalidade, dizer que eles enlouqueceram significa que algo está fugindo dessa ordem: O contato com a civilização ocidental.
Xixo, o Bosquímano que passa o filme em busca de seus filhos, pode ser considerado um “bom selvagem” até pelos seus gestos: Sua linguagem alheia aos estrangeiros, suas interpretações simples, sua ingenuidade e seu eterno sorriso, tudo isso, em contraponto, a malícia, individualidade, tristeza e friezas ocidentais. A maneira própria como ele encara as desventuras pelas quais os ocidentais passam reflete seu posicionamento no mundo, mundo este que se estende até o horizonte visual do Kalahari. Xixo vê o outro não de cima como seria comum para os estrangeiros enxergá-lo, mas com certo desinteresse, talvez por causa da missão com a qual o acaso lhe incumbiu de resgatar seus filhos ou porque os estrangeiros não possuíssem, a princípio, valores que se assimilassem aos seus. No entanto, o bosquímano por vezes se vê impulsionado a ajudar os outros, materializando desta maneira, os valores de sua cultura como solidariedade e desapego ao individualismo.
O mundo ocidental é visto, no filme, do ponto de vista de um bosquímano. Normalmente, temos uma postura etnocêntrica, analisamos outras culturas como inferiores e de acordo com nossas crenças, não relativizando o nosso olhar e tendendo a chamar culturas como as dos bosquímanos de selvagens. Utilizamos nossos conhecimentos e preconceitos para atribuir aos fatos seus significados de acordo com as crenças de nossa cultura. O filme além de passar essas mensagens deixa uma questão para reflexão que diz respeito a se é possível manter o modus vivendi respeitando diferenças e buscando a compreensão da cultura do outro sem desqualificá-la a um estamento inferior, afinal, somos todos iguais no oceano da diferença.